espero
mesmo que estas águas,
agora
tão calmas,
resolvam
mover-se e inundar minha casa.
espero
que estas águas ocupem todos os espaços e frestas,
semáforos
e setas, automóveis e condomínios,
ninhos
de pássaros, corações e labirintos.
espero
com fé a força das águas que a tudo arrasta,
arrasta
arrecifes, carnavais, sombras e sais,
arrasta
criaturas, carinhos mofados, gestos banais;
espero
que arraste também as raízes que me pregam ao chão,
espero
que as correntes me levem;
eu,
meus velhos retratos, as fotos do meu cão,
e
que a vida se refaça após a catástrofe,
com minha foto de sobrevivente
estampada em todos os jornais
abaixo a seguinte declaração:
eu, que nada mais tenho,
despeço-me do que fui sem sentir saudades de mim mesmo.
com minha foto de sobrevivente
estampada em todos os jornais
abaixo a seguinte declaração:
eu, que nada mais tenho,
despeço-me do que fui sem sentir saudades de mim mesmo.