quarta-feira, 24 de agosto de 2011

amontoado

junte tudo o que não li
todas as coisas que não fiz
tudo o que não tive ou fui.

junte toda tua cor e minha falta de luz.

junte cada cicatriz
cada queda que passou por um triz
cada palavra de ator, cada gesto de atriz
neste palco gris.

junte as amantes do imperador
e a arrogância que te dá no nariz

junte cada peça
amontoe em cada espaço
junte os falsos sorrisos e mordaças
os falsos amores e suas carcaças
junte velhos sorrisos, cartas, trapaças
coroas, caras, carapaças

junte todos os olhares por trás das máscaras
junte as imagens e seus filtros digitais
fotografias e fatos banais.

junte meus silêncios, tuas lágrimas e lenços
agrupe tudo o que for o suficiente denso
minha carne, seu nervo tenso.

junte todos os momentos de ternura
minha fé, sua candura
todas as nobres criaturas que rastejam
todas as outras que farejam
todos os que nada fazem e apedrejam.

junte as luzes da cidade
as lâmpadas de saudade
as sombras de piedade

junte tudo que repousa abaixo deste céu de anil
tudo que anda em quatro ou duas patas
por esta pátria varonil


junte tudo
e mande à puta que o pariu.